A seguir segue um trecho que separei do texto "Tratado da Terra do Brasil, de Pero de Magalhães Gândavo" do séc.XVI que relata as particularidades de cada capitania e mostra um pouco do que foi o Brasil nos primeiros séculos. No capítulo quinto, Pero de Magalhães descreve a astúcia e ferocidade dos Aymorés que naquele momento situavam-se próximos à capitania de Ilhéus. Povo feroz e guerreiro, eles não tinham aliados mas por azar dos portugueses se juntaram aos tupis durante a resistência nativa na Confederação dos Tamoios.
"Pelas terras desta Capitania até junto do Spirito Santo, se acha huma certa nação de gentio que veio do sertão há cinco ou seis annos, e dizem que outros indios contrarios destes, vierão sobre elles a suas terras, e os destruirão todos e os que fugirão são estes que andão pela Costa. Chamão-se Aymorés, a lingoa delles he differente dos outros indios, ninguem os entende, são elles tam altos e tam largos de corpo que quasi parecem gigantes; são mui alvos, não têm parecer dos outros indios na terra nem têm casas nem povoações onde morem, vivem entre os matos como brutos animaes; são mui forçosos em estremo, trazem huns arcos mui compridos e grossos conforme a suas forças e as frechas da mesma maneira. Estes indios têm feito muito dano aos moradores depois que vierão a esta Costa e mortos alguns portuguezes e escravos, porque são inimigos de toda gente. Não pelejão em campo nem têm animo para isso, põem-se entre o mato junto dalgum caminho e tanto que passa alguem atirão-lhe ao coração ou a parte onde o matem e não despedem frecha que não na empreguem. Finalmente, que não têm rosto direito a ninguem, senão a traição fazem a sua. As mulheres trazem huns paos tostados com que pelejão. Estes indios não vivem senão pela frecha, seu mantimento he caça, bichos e carne humana, fazem fogo debaixo do chão por não serem sentidos nem saberem onde andão. Muitas terras viçosas estão perdidas junto desta Capitania as quaes não são possuidas dos portuguezes por causa destes indios. Não se pode achar remedio pera os destruirem porque não têm morada certa, nem saem nunca dentre o matto: E assi quando cuidamos que vão fugindo ante quem os persege, então ficam atraz escondidos e atirão aos que passão descuidados. Desta maneira matão alguma gente. Todos quantos indios ha no Brasil são seus inimigos e temem-nos muito, porque he gente atreiçoada. E assi onde os ha nenhum morador vai a sua fazenda por terra que não leve quinze vinte escravos consigo de carcos e fréchas. Estes Aymorés são mui feroz e crueis, não se pode com palavras encarecer a dureza desta gente. Não andao todos Juntos, derramão-se por muitas partes, e quando se querem ajuntar assobiam como passaros ou como bogios de maneira que huns aos outros se entendem e se conhecem Tambem os portuguezes matão alguns delles, e têm muitos destruidos principalmente nesta Capitania dos llheos, e guardão-se muito delles, porque já sabem suas manhas e conhecem mui bem sua malicia."
Fonte:Pero de Magalhães Gândavo - Tratado da Terra do Brasil; História da Província Santa Cruz, Belo Horizonte, Ed. Itatiaia, 1980.

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