Cacique Camacan Mongoyo, de Jean Baptiste Debret, 1834.A Serra do Mar foi uma grande divisora e às vezes lar de diferente etnias indígenas antes da sua exploração e devastação. No início do século XIX, os tupis já tinham sido varridos da terra mas a ganância do homem branco ainda não atingira por completo áreas do sertão onde viviam os índios Coroados, na fronteira do Rio de Janeiro com Minas Gerais. Leoni Iório foi um professor da cidade de Valença, interior do Rio de Janeiro e em seu livro 'Valença de Ontem e de Hoje' pôde mostrar um pouco da história e da resistência dos Coroados que por lá viveram:
"Os únicos habitantes do Certâo do Rio Preto, antes, muito antes mesmo de 1789, eram sem dúvida, os índios Coroados, “resultantes do cruzamento dos Coropós com os temíveis Goitacás de Campos, que os venceram em batalha e os assimilaram” (Rugendas), os quais se haviam instalado em terras da futura região valenciana, em data muito anterior à da penetração do homem branco nos sertões fluminenses.
Os índios Coroados — mais tarde conhecidos pela denominação de Coroados de Valença — se estabeleceram na margem superior do rio Paraíba, forçados pelas lutas constantes, dada a perseguição que lhes moviam os seus perigosos parentes - os Puris - que, segundo informa Príncipe Maximiliano (1) que com eles mantivera contato pessoal, eram “selvagens e vagueantes”, vivendo “entre o mar e a margem norte do Paraíba”.
(1) - Viagem ao Brasil.
Os Coroados eram constituidos de galhos denominados Purus e Araris, aqueles em pequeno número, representando os indígenas de Valença, e estes, pouco mesclados, vivendo em Rio Bonito (Conservatória).
Os Puris, debandados em virtude da invasão lusa, viviam nas proximidades da futura Aldeia de Valença e, com os Coroados e os Coropós, empenhavam-se em árduas lutas que terminavam pela quase total dizimação destes, com quem chegavam eles a ser confundidos por sua flagrante semelhança.
Escreve Debret: “Confundem-se eles (os Coroados) muitas vezes com os Coropós e essas duas nações semelhantes, fragmentos da grande raça dos Tapuios, unem-se para fazer guerra aos Puris, que os perseguem sem cessar, embora sejam de origem comum”.
Rodolfo Garcia nos revela que os Coroados eram “parentes de origem comum com Paris e os Coropós”.
Debret ainda nos informa da existência, na região, de duas outras tribos selvagens mestiças: a dos Tampruns e Sazaricons, igualmente chamados Coroados (2), dispersos em pequenos bandos, em quase todo o vale do Paraíba, e ligados aos Paris que viviam, aquí e ali, em grande número, e eram muito mesclados, segundo a classificação de Martius.
(2) Viagem Pitoresca — págs. 21 e 32 — tomo 1.
O Professor Leoni destaca que descendentes dos Tamoios (tupis), em consequência do avanço português em suas terras, poderiam estar vivendo entre os Coroados. Outra particularidade que eu não conhecia era o hábito antropofágico também entre tapuias e o costume da obtenção de troféus de guerra feitos a partir de cabeças de outros índios vencidos em guerra:
"Sobre as tribos do sertão de Valença, o historiador Alberto Lamego (3) escreve: — “Designavam-nas pelo nome geral de Coroados, pela maneira de cortar o cabelo, não nos parecendo porém, que, esses índios tenham ligação com os Coroados de Campos, oriundos da união entre Goitacás e Coropós. Mais provável é que a maioria pertencesse à nação Pari, reconhecida nos matagais do Muriaé, do Pomba e de Cantagalo, cujos vestígios foram também anotados em Resende e Areias, no limite oposto e ocidental da Serra Fluminense.
E’ bem possível mesmo que, “toda essa multidão de Xumetós, Pitás, Araris e outros, denominados geralmente Coroados”, de que nos fala Joaquim Norberto, nada mais sejam que restos de tribos Puris acuadas na floresta pela invasão dos colonizadores, ou fragmentos étnicos de mais antigas nações como a dos Tamoios e Saruçus, dizimados na Baixada, nos primeiros séculos, e que tenham escolhido a Serra como um refúgio.
O Paraíba deve ter sempre sido um caminho para os aborígenes, e por isso, não é de estranhar que o último reduto dessas raças primitivas tenha, justamente, sido a zona central da Serra onde se acoitaram “.
O Paraíba deve ter sempre sido um caminho para os aborígenes, e por isso, não é de estranhar que o último reduto dessas raças primitivas tenha, justamente, sido a zona central da Serra onde se acoitaram “.
A DECLARAÇÃO DE GUERRA INDÍGENA
Para a declaração de guerra, os índios obedeciam a uma junta organizada: numa choça de “cacique” o congresso deliberava. Aí, preparavam-se bebidas, as mais extravagantes, que eram distribuídas com o fim de embriagar os índios, perturbando-lhes a razão. Só depois de se acharem os índios totalmente tomados pela bebida é que os conselheiros de guerra deliberavam definitivamente.
Para a declaração de guerra, os índios obedeciam a uma junta organizada: numa choça de “cacique” o congresso deliberava. Aí, preparavam-se bebidas, as mais extravagantes, que eram distribuídas com o fim de embriagar os índios, perturbando-lhes a razão. Só depois de se acharem os índios totalmente tomados pela bebida é que os conselheiros de guerra deliberavam definitivamente.
Uma lei invariável entre eles era retirar seus cadáveres imediatamente do campo da luta, para lhes dar sepultura, ou para ocultar, principalmente, as perdas ao inimigo — uso louvável por sua natureza, mas que, às vezes, redundava na desvantagem de perderem esplêndidas oportunidades de vitória, ao se entreterem, por muito tempo, nessa escrupulosa tática de guerra...
O vencedor desfrutava os despojos. Os prisioneiros tinham suas cabeças decepadas, as quais eram conduzidas, como troféus, na ponta de uma lança.
Certas cabeças de selvagens — relata-nos Debret — encontradas, aos montes, nas aldeias, apresentavam detalhes interessantes, no tocante à sua conservação - “São troféus militares que atestam o número de prisioneiros de guerra, tanto quanto a ferocidade dos vencedores. Todo prisioneiro de guerra se destinava a ser comido e facultava um dia de festas a seus inimigos, transformados, com a vitória, em canibais. No momento aprazado, a vítima era amarrada a um cepo, afim de ser abatida a flechadas ou a golpes de tacape; depois de morta, cortavam-lhe todas as partes carnudas, enquanto se acendia o fogo que ia servir para assá-las. Toda a população esfomeada se reunia em torno, e o festim começava com as mais turbulentas manifestações de uma alegria atroz. A cabeça cortada, que ficava intacta, era logo, suspensa ao cepo, por meio de cordas, que se enfiavam pelos orifícios das orelhas e saíam pela boca. O todo era arranjado de maneira que se pudesse, artificialmente, obrigar a cabeça a um movimento de aprovação, reiterado à vontade, enquanto o grupo alegre de índios dançava em redor, atirando-lhe flechas, e insultando, covardemente, sem piedade. Terminada a festa, o vencedor ficava com direito de se apropriar da cabeça ainda sangrando".

5 comentários:
Moro em Sao Fidelis RJ, aqui a presença da historia desses indios permanece e da nome aos principais bairros(Vila dos Coroados e Ipuca)!Me explique por favor da onde se origina tanta presença!
Desde ja obrigado!
Tambem sou de sao fidelis e posso te responder! É porque era aqui que eles habitavam com suas tribos, e elas eram muito proximas uma das outras,separadas apenas pelo rio paraiba do sul, no meio nasceu a cidade de sao fidelis atraves de uma missao jesuita, que viha a essa regiao de uma forma estrategica para conter as frequentes guerras entre eles. Hoje ainda pode ser observado na cidade lendas e fatos veridicos, varios túneis pelo centro da cidade ultilizados para praticas guerilheiras na epoca(meio das duas tribos onde hoje se localizam os atuais bairros Ipuca e Vila dos Coroados).Por isso Sao Fidelis era e é o principal palco dessa historia de dois povos indigenas tao opostos!
Respondido????????
Observe mais a historia do nosso municipio por favor tah! Visite o museu no centro da cidade, se nao sabe é no antigo Solar do Barrao de Vila Flor anexo a Biblioteca Municipal!
Valeuuuuuuuu
Ola todos preocuro descendentes das TRIBOS que habitavam MUQUI-Espirito SAnto/ES
Sou descendete de tribos que habitavam Muqui e arredores pelos anos de 1920. Tenho interesse em saber qual tribos eram e se ainda existem e aonde se localizam obrigado
neyous@live.jp
ciageral.co77@yahoo.it
SKype:andre-shogun
obrigado mais uma vez a todos
Gostaria de saber qual a relação dos indios coroados , corpós e os xoklengs e kaigangs do sul, pois o costume de usar botoque e cortar o cabelo em forma de coroa são praticamente os mesmos.
fgguimaraes@hotmail.com
Oi, minha avó queria saber, onder é que se encontram os puris! se possivel for, Obrigado desde ja ;* Isabella.
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